OrigemA Cabra de raça Serpentina, bem como o que é comum noutras etnias desta espécie, resultou de cruzamentos de animais trazidos em tempos remotos para a Península Ibérica por povos de várias origens e aí, face a condicionalismos ambientais e a alguma selecção morfológica, deram origem a uma população de acentuada homogeneidade, merecendo assim, posteriormente o estatuto de raça.
A sua denominação tem sofrido algumas alterações de acordo com as deslocações e a expansão ocorridas. Assim, inicialmente, porque os primeiros efectivos eram originários de Espanha, denominava-se Espanhola ou Castelhana; posteriormente por se ter fixado junto à fronteira passou a ser mais conhecida por Raiana, e, finalmente, dado que os seus efectivos se multiplicaram predominantemente na Serra de Serpa passou a ter o nome de Cabra Serpentina, pelo qual hoje é mais conhecida..
Refira-se que para esta ultima designação, que se considera recente, não terá sido estranho o salutar sentido de bairrismo do saudoso Dr. António José Bettencourt que, com todo o seu entusiasmo, foi dos poucos técnicos que alguns estudos interessantes realizou sobre estes caprinos.
Os caprinos de raça Serpentina encontram-se quase na sua totalidade a Sul do Tejo, verificando-se a sua influência, embora discreta, em algumas "cabradas" existentes na charneca do Ribatejo. A quase totalidade dos efectivos, geralmente de grandes dimensões e elevado grau de pureza, encontram-se na metade interior do Alentejo, em zonas mais montanhosas, e logo mais marginais, com incidência particular nas Serras D'Ossa e de Portel.
Sistema de Exploração
Os animais desta raça são em geral explorados na dupla função carne - leite notando-se nos últimos anos na maioria dos produtores um interesse crescente pela produção lactopoiética. Não há dúvida que estes animais, à semelhança de outros caprinos nacionais, apesar de dignificantes esforços isolados de alguns técnicos, não têm sido devidamente apreciados. No entanto, nos últimos anos, graças à colaboração conjunta de entidades oficiais e da Associação Portuguesa de Criadores de Caprinos da Raça Serpentina, tem-se procedido a um levantamento sistemático de elementos com vista à sua caracterização produtiva e reprodutiva que adiante referiremos.
O regime de exploração predominante nos efectivos inscritos no R. Z. é o extensivo, caracterizado por longos períodos de carência alimentar. No entanto, muitos criadores interessados no aumento da produção leiteira, procedem à suplementação dos animais, mormente na altura dos partos e durante a lactação, utilizando normalmente feno, palha, cereais e/ou concentrados comerciais.
Em termos reprodutivos a principal época de cobrição inicia-se nos finais de Abril, e a época de maior concentração de partos ocorre normalmente no mês de Outubro. Este sistema é condicionado por aspectos económicos relacionados com a maior valorização dos cabritos na época de Natal, altura em que se procede ao desmame quando estes tem aproximadamente dois meses de idade. A ordenha inicia-se nesta altura e prolonga-se normalmente até finaisJunho consoante as condições alimentares disponíveis. As primíparas (anacas) seguem um ritmo diferente, parindo nos meses de Janeiro e Fevereiro, sendo os respectivos cabritos transacionados na altura da Páscoa, sendo posteriormente ordenhadas conjuntamente com o efectivo adulto.
Livro genealógico
Em 1990, Nabais Domingues, com a intuito de se analisar o interesse da criação do Registo Zootécnico da Raça, procedeu ao levantamento exaustivo dos efectivos caprinos existentes no Alentejo (Quadro 1). Concluiu este autor que na quase totalidade dos efectivos observados existiam animais que se identificavam com o actual padrão da raça. Verificou também que apenas 20% dos rebanhos integravam um número de animais passíveis de inscrição no Registo Zootécnico da raça. De entre estes rebanhos, apenas 34% dos seus criadores manifestaram interesse em aderir ao R.Z.
Quadro 1 - Levantamento de Efectivos Serpentinos na Região Alentejana (Nabais Domingues, 1990)
* Explorações Visitadas 322
* Total de Animais 57 203
* Total Fêmeas Adultas 48 801
* Total Machos Adultos 1 740* Possibilidade de Inscrição no RZ
Nº de Efectivos 58
Nº Fêmeas 14 473
Nº Machos 649* Produtores Interessados em Aderir ao RZ
Nº Efectivos 20
Nº Fêmeas 4 461
Nº Machos 191
No início de 1991, com a homologação do respectivo regulamento, foi instituído o Registo Zootécnico da raça Caprina Serpentina visando particularmente a conservação da pureza desta etnia, possibilitar o seu progresso zootécnico e favorecer a difusão de bons reprodutores.
A partir desta data iniciou-se o trabalho de campo com a inscrição de animais. Até finais de 1995 aderiram ao Registo Zootécnico 39 criadores ao que correspondem 4 374 fêmeas reprodutoras inscritas. Entretanto, verificou-se o abandono de 9 criadores, sendo os seguintes, os pricipais motivos: (i) grande escassez de cabreiros que leva à venda dos rebanhos; (ii) insuficiência de incentivos monetários para manutenção de animais em raça pura, preferindo-se a mais valia resultante de cruzamentos com raças mais produtivas e (iii) motivos de natureza higio sanitária
É de referir que a gestão do Registo Zootécnico, como acontecia com todos os outros, inicialmente dependia da Direcção Geral da Pecuária. Posteriormente, com a constituição da Associação Portuguesa de Caprinicultores de Raça Serpentina (APCRS) estas funções passaram para a ser desempenhadas por essa instituição.
Fialho, J. B. R. (1996). A Cabra Serpentina - Origem, Efectivos, Registo Zootécnico, Características Genéticas, Morfológicas e Produtivas. Colectânea S.P.O.C, vol. 6, nº1
|
|